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A produtividade de Paul Bunyan

  • Luis A. Correia
  • 20 de dez. de 2022
  • 3 min de leitura

O desenho animado de curta-metragem “Paul Bunyan” é uma produção da Disney

do início da década de 1970. Conta a história de Paul Bunyan, um lenhador gigante,

que faz prosperar e crescer a região usando a própria força e seu machado. Tem a

ajuda e a companhia de Babe, um boi azul, também gigantesco, para irrigar

cidades, realizar benfeitorias, evitar calamidades. Paul é simpático, humilde,

despojado e vive nas montanhas. Encarna o espírito livre.


Eis que chega na região a modernidade, na figura de um homenzinho, Joe Muffaw,

munido de grande avanço tecnológico: uma serra elétrica. Ele é antipático,

arrogante, janota e vive na cidade. Encarna o espírito do progresso.


Nasce da descrença o desafio para verificar se aquela invenção é realmente tão

poderosa quanto trombeteada pelo arauto da tecnologia. A disputa visa estabelecer

quem é mais produtivo cortando madeira. De um lado, Paul Bunyan e Babe; do

outro, Joe com a serra elétrica e a locomotiva.



A disputa começa. Em função dos contrastes que o desenho apresenta, ou de

qualquer fator subconsciente, a torcida recai sobre Paul Bunyan. Um apito encerra

a competição. Os juízes olham para as intermináveis pilhas de madeira. De posse

de uma fita métrica, um dos juízes começa. O vencedor, por meio centímetro (na

tradução), confessado com um soluço pelo incrédulo, porém honesto auditor,

foi…Joe. Ele pula e comemora, quebrando o silêncio da consternação geral. Paul se

afasta cabisbaixo, imitado por seu boi azul.


Quando o juiz do alto da pilha de madeira concluiu a medição, dando a vitória ao

“homem da serra elétrica”, testemunhamos a derrota do “mocinho”. O “bem”

perdera. Eu negava internamente aquele resultado – talvez um pesadelo, um erro

na medição. Mas era aquilo. O desenho finalizava com uma voz em off dizendo que

nunca mais Paul Bunyan e Babe foram vistos, mas que ainda se ouviam seus sons e

que as geleiras ainda quebravam com suas brincadeiras.


Na cena final, eles pareciam felizes. Souberam superar a derrota. Eu não.


Essa lenda sobre o afastamento pelo progresso, o sentimento de não ter espaço no

novo mundo (as dimensões de Paul e Babe “atrapalham” a expansão da cidade) e

de não ser mais necessário, independentemente do passado, das realizações,

encena a história de muitos até hoje. São outros personagens à procura de um

papel.


Acho que – não sei se, devido a algum sentimento de revanche – Paul Bunyan

ganharia hoje a competição de produtividade. No contexto atual de uma economia

do conhecimento, a capacidade humana de trabalho (ainda) é mais crítica do que a

capacidade de máquinas e sistemas, que podem ser mais rapidamente copiados,

replicados.


Bunyan representaria um diferencial estratégico mais significativo. Quem sabe, um

“fator chave de sucesso”. Claro que hoje seria difícil fazê-lo se interessar por isso:

já tem seu próprio bônus que é caminhar e brincar por montanhas e rios, na

certeza de que não é mais um treinamento ao ar livre.


O desenho apresentava suas polarizações: valores de socialização versus progresso

tecnológico; o sentimento libertário da vida no campo versus o confinamento à vida

nas metrópoles; o homem versus a máquina. Mas esses antagonismos talvez não

caibam em um ambiente de ubiquidade tecnológica.



Que busquemos um progresso tecnológico que permita socializações de diversos

segmentos, uma mobilidade em grande escala, a interação do homem no espaço

tecnológico onipresente. Que busquemos também a sensatez, mas sem perder o

sonho, como em um dos versos da canção de Paul Bunyan: “com os pés no chão e

a cabeça no céu”.


Luis Adonis Correia, estrategista de capital humano, gestão de mudança e desenvolvimento organizacional, atuando nos setores público, privado e sem fins lucrativos, como executivo, consultor, mentor e treinador.

Instagram: @luis.adoniscorreia



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